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Em 30 de dezembro de 2025, em uma sala da Polícia Federal (PF), o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do recém-liquidado Banco Master, afirmou ter se encontrado com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), “em algumas poucas oportunidades” para tratar da proposta de aquisição de seu banco pelo Banco de Brasília (BRB). Vorcaro mencionou visitas mútuas às residências um do outro para “conversas institucionais”. Do outro lado, Ibaneis Rocha, cujo governo é acionista majoritário do BRB, afirmou que, em momento algum, nas quatro vezes em que encontrou Vorcaro, tratou de assuntos relacionados ao BRB/Master. “Entrei mudo e saí calado”, declarou o governador à imprensa, atribuindo a responsabilidade ao ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, até então de sua confiança.

A divergência, exposta em vídeos dos interrogatórios, sob sigilo até serem liberados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, são mais uma peça de um quebra-cabeça no escândalo que ameaça não apenas o futuro do banco público do Distrito Federal, mas também as ambições políticas de Ibaneis, que almeja uma vaga no Senado nas eleições deste ano O quanto Ibaneis sabia? A questão não é apenas quem diz a verdade, mas o que aconteceu nos bastidores de uma operação que pode ter exposto o BRB a um rombo de pelo menos R$ 5 bilhões, valor que superaria o patrimônio líquido do próprio banco, avaliado em R$ 4,9 bilhões no final de 2025. O valor foi calculado pelo diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, em depoimento à PF no final de 2025. Na ocasião, Aquino alertou que o desfalque poderia ser ainda maior caso não houvesse uma solução para outro problema: o Will Bank, o banco digital de Vorcaro, também em situação delicada e liquidado em 21 de janeiro deste ano.

No depoimento à PF, Aquino afirmou que a direção do BRB, ao aplicar as técnicas corretas, “deveria ter identificado” os problemas nos créditos adquiridos do Master. “Não tenho dúvidas disso”, afirmou. Mas sobre o tema, Ibaneis se limitou a declarar que o “valor só poderá ser afirmado quando terminarem as auditorias”. “O resto é chute”, afirmou. Enquanto o governador tenta se distanciar da negociação, apresentando-se como figura traída por um subordinado, o depoimento do próprio ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa desenha um cenário diferente.

Costa confirmou à PF que “costumeiramente prestava contas” ao governador. Ele descreveu a existência de “pontos de controle periódicos” com Ibaneis, nos quais levava uma lista de assuntos a serem tratados e reportava o andamento das iniciativas do banco, incluindo a aquisição do Master e afirmou: “Eu não levaria adiante uma tentativa de aquisição de banco sem que isso fosse comunicado ao acionista controlador”.

Entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master, inclusive com a polêmica compra de carteiras de precatórios e ativos de baixa liquidez, operações que mais tarde se revelaram fraudulentas. Além disso, em agosto de 2025, o governo do Distrito Federal enviou à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em regime de urgência, um projeto de compra de 49% das ações ordinárias do Master pelo BRB, além de 100% das ações preferenciais do capital social da empresa. O movimento fez os deputados distritais reféns, já que, pelo regulamento da casa, eles teriam que priorizar a votação da questão dentro de 45 dias e seriam impedidos de destravar outros assuntos da Câmara até uma resolução.

O resultado veio a jato: 14 distritais aprovaram a compra do Master por meio do Projeto de Lei 1882/2025. O texto virou lei e foi sancionado por Ibaneis. Tudo em apenas uma semana. A aquisição só não foi para frente por ter sido impedida pelo Banco Central no mês seguinte. Com ações financeiras dessa dimensão e articulação política para a aquisição do Master conduzidas sob a lógica desses “pontos de controle” regulares, como afirmou o ex-presidente do BRB, sobre a participação de Ibaneis Rocha, outra dúvida importante é levantada: como o governador, informado sobre o negócio, não percebeu ou questionou os riscos de uma operação de tal magnitude com uma instituição financeiramente instável?

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